As últimas 48 horas em Brasília têm sido marcadas pelo
esforço de governistas e oposicionistas pela conquista de deputados indecisos
sobre o afastamento da presidente. Além dos que estão em cima do muro, os já
decididos também são alvo – pelo menos 15 parlamentares teriam mudado de ideia
às vésperas da votação.
O nível a que chega a disputa por apoio na reta final da
discussão sobre admissibilidade do processo na Câmara é ilustrado por uma
polêmica envolvendo uma deputada grávida de 35 semanas, que afirma ter recebido
ordens médicas para não se deslocar de avião para a votação no Congresso.
Para Alberto Fraga (DEM), deputado mais votado do Distrito
Federal, Clarissa Garotinho (PR-RJ) deveria seguir o exemplo da travessia feita
por Maria, mãe de Jesus, e viajar a Brasília para participar da votação sobre o
impeachment.
"Alguém avise pra Clarissa Garotinho que Maria viajou
de Nazaré pra Belém de jumento, pra cumprir sua missão, e pariu Jesus, forte e
com saúde", argumentou Fraga pelo Twitter.
Alguém avise pra Clarissa Garotinho que Maria viajou de Nazaré pra Belém de jumento, pra cumprir sua missão é pariu Jesus, forte e com saúde— Alberto Fraga (@alberto_fraga) 16 de abril de 2016
A deputada passou mal durante a votação da Comissão Especial
do Impeachment. Para setores da oposição, ela, filha do ex-governador Anthony
Garotinho (PR-RJ) – ex-aliado que se tornou inimigo do presidente da Câmara,
Eduardo Cunha (PMDB-RJ), – teria pedido licença médica para se abster, o que
favoreceria a presidente Dilma Rousseff.
A BBC Brasil conversou com Fraga, que reiterou as críticas à
parlamentar. "Ela é uma menina saudável, gravidez de 35 semanas não tem
nenhum risco", afirmou.
Questionado sobre as ordens médicas mencionadas por Clarissa
Garotinho, Fraga responde: "O médico só pode ser petista. Não tem problema
nenhum vir aqui e votar".
O parlamentar prossegue: "Não vai ter tumulto. Grávidas
têm sempre prioridade".
A reportagem procurou a equipe da deputada em seu gabinete
em Brasília, mas ninguém foi encontrado. Ela, que se declarava a favor do impeachment,
disse à imprensa sentir muito, mas que não podia "colocar seu filho em
risco".
Temer, Lula e os 'Nem Dilma, nem Cunha'
A corrida por votos movimenta igualmente os dois lados.
O vice-presidente Michel Temer (PMDB) antecipou sua vinda a
Brasília para este sábado em um esforço, segundo relatos, para articular votos
que culminariam em sua ascensão à Presidência. Há semanas, o ex-presidente Lula
recebe parlamentares, ministros e governadores em seu quarto em um hotel na
capital federal.
Dilma, que hoje faria discurso para movimentos sociais
acampados próximos à Esplanada dos Ministérios, cancelou a agenda para
intensificar discussões sobre apoio para a continuidade de seu mandato.
Os três – Temer, Lula e Dilma – fizeram pronunciamentos recentes
nas redes sociais, em texto ou vídeo, atacando-se mutuamente.
De outro lado, deputados da Rede, PSB e PSD articulam, desde
a sexta-feira, um movimento cujo mote é "Nem Cunha, nem Dilma".
Diferentemente das lideranças de seus partidos, que
anunciaram votos favoráveis ao impeachment, eles argumentam que o processo
conduzido pelo presidente da Câmara, réu no Supremo Tribunal Federal sob a
acusação de recebimento de propina no escândalo da Petrobras, seria tão ou mais
ilegítimo do que o governo que se tenta derrubar.
Há relatos nos corredores do Congresso de que o governo
estaria trabalhando para que parlamentares faltassem à sessão deste domingo,
dificultando o esforço da oposição em alcançar os 342 votos necessários para o
prosseguimento do processo.
Deputados da frente "Nem Dilma, nem Cunha"
estariam entre os que cogitam não comparecer.
O PP, quarta maior bancada da Câmara, que anunciou apoio ao
impeachment, teria visto 10 de seus deputados migrarem para o lado da
presidente nas últimas horas, graças a articulações de Flavio Dino (PC do B),
governador do Maranhão.
Após declarações de parlamentares da legenda, o PP decidiu
"fechar questão" em relação ao impeachment, sugerindo que deputados
que votarem contra o afastamento poderão ser expulsos do partido.
BBC Brasil
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