Confira o desempenho das personalidades evangélicas nas urnas



A eleição de 2026 colocou novamente no palco político nomes conhecidos das igrejas, da música gospel e das redes sociais. Cantores, pregadores, pastores e personalidades que construíram influência no meio evangélico disputaram vagas para a Câmara dos Deputados e assembleias legislativas em diferentes estados. Mas afinal, como foi o desempenho deles nesse primeiro turno? O resultado esteve longe de ser uniforme. Houve reeleições, crescimento expressivo de votação, quedas acentuadas e também candidaturas que não conseguiram transformar popularidade religiosa ou digital em votos suficientes para conquistar uma cadeira.


Comunhão fez um levantamento com base nos registros de candidatura e resultados eleitorais divulgados pela Justiça Eleitoral. Vale lembrar que TSE disponibilizou para 2026 os dados de candidaturas, situação dos registros, resultados e prestações de contas por meio do DivulgaCandContas, do Portal de Dados Abertos, das Estatísticas Eleitorais e do sistema oficial de resultados.

O desempenho dos cantores gospel

Entre os cantores gospel, o principal resultado foi o de Mara Lima, reeleita deputada estadual no Paraná. Ela recebeu 41.133 votos e ficou entre os 54 eleitos para a Assembleia Legislativa. A cantora, que já havia sido eleita em 2010, 2014 e 2022, teve uma votação nominal menor que os 46.011 votos de 2022, mas manteve a cadeira.

A trajetória de Mara Lima mostra como experiência política e reconhecimento no meio religioso podem formar uma base eleitoral relativamente estável. Antes da eleição de 2026, ela já havia acumulado quatro vitórias eleitorais e tinha como melhor votação os 56.516 votos obtidos em 2010. A queda nominal em relação a 2022, portanto, não impediu a reeleição.

Davi Sacer também chamou atenção, mas por um resultado diferente. O cantor, conhecido pela trajetória em grupos como Toque no Altar e Trazendo a Arca, disputou deputado federal por São Paulo pelo PP e terminou com 40.087 votos. Apesar da votação expressiva em números absolutos, não alcançou uma das cadeiras destinadas ao estado.

O resultado de Sacer ajuda a mostrar uma característica importante do sistema proporcional: ter dezenas de milhares de votos não significa, necessariamente, conquistar uma vaga. A distribuição das cadeiras depende também do desempenho do partido ou da federação. Em São Paulo, foram 1.045 candidatos disputando as vagas de deputado federal, o que tornou a competição particularmente ampla.

Marcelo Aguiar terminou a disputa para deputado estadual em São Paulo com 37.585 votos, mas também não foi eleito. Cantor gospel e compositor, ele havia obtido 42.898 votos para deputado estadual em 2022 e assumiu uma cadeira na Assembleia em 2025 como suplente. Em 2026, portanto, buscava transformar o mandato exercido como suplente em uma vitória nas urnas, mas terminou novamente fora da faixa de eleitos.

Outro destaque foi Elaine Martins, que recebeu 14.714 votos para deputada estadual no Rio de Janeiro. A cantora, que estreou em uma eleição geral, ficou como suplente. O resultado mostra uma votação maior que a de outras artistas da lista, mas ainda insuficiente para garantir uma cadeira na Assembleia fluminense.

Cristina Mel teve 8.273 votos para deputada federal no Rio de Janeiro e ficou como suplente. A cantora já havia concorrido a deputado federal em 2018 e 2022, quando recebeu 9.882 e 23.936 votos, respectivamente. Assim, o resultado de 2026 representa uma nova redução em sua votação nominal.

Gisele Nascimento terminou com 5.453 votos para deputada estadual no Rio de Janeiro, ficando como suplente. O resultado ficou bastante abaixo dos 19.370 votos obtidos por ela para deputada federal em 2022 e também não recuperou a perda registrada na eleição municipal de 2024, quando teve 3.265 votos para vereadora.

Vanilda Bordieri teve uma das menores votações entre as cantoras mais conhecidas da lista: 4.480 votos para deputada federal por São Paulo. Ela terminou em 355º lugar entre 1.045 candidatos. Em 2018, havia recebido 18.604 votos, o que evidencia a distância entre o resultado atual e sua melhor marca eleitoral.

Noemi Nonato, cantora e ex-vereadora de São Paulo, terminou com 2.153 votos para deputada estadual. A votação ficou muito abaixo dos resultados que ela alcançou durante sua trajetória na Câmara Municipal, quando chegou a obter 35.601 votos em 2012. Depois de quatro eleições municipais vitoriosas, ela não conseguiu recuperar nas urnas o desempenho que teve no início da carreira política.

A situação de Kleber Lucas, Lauriete e Welington Camargo

Um caso precisa ser tratado separadamente. Kleber Lucas não concorreu diretamente a deputado. O cantor e pastor foi registrado como 2º suplente de Benedita da Silva (PT) na disputa pelo Senado no Rio de Janeiro. Como suplente, ele não recebeu uma votação nominal própria. Seu nome integrou a chapa registrada com o número 131. Benedita não foi eleita.

O caso de Lauriete é diferente. A cantora chegou a ser cotada para disputar uma vaga de deputada federal pelo Espírito Santo, mas ficou fora da lista final de candidatos. Portanto, não houve votação de Lauriete em 2026. Ela havia sido eleita deputada federal em 2010 e 2018, mas terminou sem mandato após receber 25.586 votos em 2022.

Welington Camargo, grafado dessa forma no registro eleitoral, disputou deputado federal por Sergipe pelo PL. O candidato, músico e irmão dos cantores Zezé Di Camargo e Luciano, teve candidatura deferida. O resultado final de votos não aparece consolidado nas fontes consultadas com o mesmo grau de segurança dos demais nomes e, por isso, é indicado na tabela como votação não confirmada.

O desempenho dos pastores

Entre os pastores, o maior destaque da lista foi Pastor Sargento Isidório. Ele foi o candidato mais votado para deputado federal na Bahia, com 248.147 votos, superando Antonio Brito, que terminou com 205.815. Isidório garantiu a reeleição e voltou a ocupar o topo da votação individual no estado.

O resultado representa uma forte recuperação. Em 2022, Isidório havia recebido 77.164 votos. Quatro anos antes, em 2018, havia alcançado 323.264. Com os 248.147 votos de 2026, recuperou grande parte da força eleitoral perdida na eleição anterior.

Pastor Marco Feliciano também foi reeleito em São Paulo, com 122.119 votos. O Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo confirmou a eleição pelo quociente partidário. Feliciano ficou na 37ª posição entre os 70 deputados federais eleitos pelo estado.

Apesar da reeleição, o resultado revela uma queda importante na votação nominal. Em 2022, Feliciano havia recebido 220.595 votos. Em 2018, foram 239.784. A votação de 2026, portanto, ficou aproximadamente 44,6% abaixo da marca de 2022. A manutenção do mandato, mesmo com a redução, evidencia novamente a importância do sistema proporcional e do desempenho partidário.

Silas Câmara, no Amazonas, recebeu 93.497 votos e foi eleito deputado federal. A votação representou 4,41% dos votos válidos do estado. Câmara possui uma das trajetórias mais longas entre as lideranças evangélicas da política brasileira e vinha de 125.068 votos em 2022.

No Distrito Federal, Julio Cesar Ribeiro, ligado à Igreja Universal, foi eleito com 90.092 votos, correspondentes a 5,39% dos válidos. Ele terminou em quinto lugar na disputa pelas oito vagas da Câmara.

Pastor Henrique Vieira também conseguiu a reeleição, mas representa um campo político diferente do perfil conservador predominante entre várias lideranças evangélicas. Candidato pelo PSOL no Rio de Janeiro, recebeu 77.584 votos e foi eleito deputado federal. O resultado reforça que a presença evangélica na política não corresponde a um único espectro ideológico.

Cezinha de Madureira, por sua vez, recebeu 60.596 votos para deputado federal por São Paulo. O pastor da Assembleia de Deus Ministério Madureira foi eleito nas três eleições anteriores que disputou, mas em 2026 ficou fora da relação de eleitos. Em 2022, havia obtido 143.434 votos. A queda, portanto, foi superior à metade de sua votação anterior.

O resultado de Otoni de Paula também foi de queda. O pastor e deputado federal recebeu 19.364 votos no Rio de Janeiro e terminou como suplente. Em 2022, havia sido eleito com 158.507 votos; em 2018, tinha conquistado 120.498. A comparação mostra uma das maiores perdas de votação entre os políticos evangélicos mais conhecidos da lista.

Pastor Eurico, em Pernambuco, teve outro recuo expressivo. Recebeu apenas 11.257 votos e não foi eleito. Em 2022, havia obtido 100.811 votos; em 2018, 125.025; e em 2014, 233.762. Em quatro eleições, a votação passou de mais de 230 mil votos para pouco mais de 11 mil.

Influencers e uma nova geração de candidatos


Na categoria de personalidades digitais, o nome mais representativo da lista é Vitória Souza, conhecida como Pregadora Vitória. Aos 20 anos, ela disputou uma vaga de deputada federal por São Paulo pelo PP e terminou com 31.070 votos. Não foi eleita. Sua candidatura chama atenção por representar uma geração de lideranças cristãs cuja notoriedade foi construída fortemente nas redes sociais.

O resultado é significativo quando comparado à eleição municipal anterior. Em 2024, Vitória havia recebido apenas 52 votos para vereadora em Votuporanga. O salto para 31.070 votos em 2026 mostra que a visibilidade digital pode produzir crescimento eleitoral muito rápido, embora, neste caso, ainda não tenha sido suficiente para garantir uma cadeira na Câmara.

A experiência de Vitória ajuda a diferenciar duas coisas que às vezes são tratadas como sinônimas: alcance nas redes sociais e força eleitoral consolidada. A candidatura conseguiu multiplicar em centenas de vezes a votação anterior, mas ainda terminou fora das vagas. O fenômeno indica que a internet pode ser uma porta de entrada para a política, mas não substitui automaticamente estrutura partidária, território e capacidade de mobilização.

O que os resultados mostram

O desempenho dos nomes selecionados apresenta uma fotografia bastante heterogênea da participação evangélica na política. A eleição também reforçou a diferença entre liderança religiosa tradicional e influência digital. Pastores com décadas de atuação política possuem estruturas eleitorais mais consolidadas, enquanto nomes mais jovens, como Vitória Souza, dependem em grande medida da capacidade de transformar audiência digital em presença territorial e voto.

O movimento ocorre em um cenário no qual o TSE registrou redução no uso explícito de títulos religiosos nos nomes de urna: foram identificados 311 nomes contendo “pastor”, “bispo”, “missionário” ou variações em 2026, contra 524 em 2022.

O dado não significa que a participação evangélica na política tenha diminuído na mesma proporção. O próprio levantamento precisa ser interpretado com cautela, porque o TSE não possui um campo que classifique o candidato simplesmente como “evangélico”. Um pastor pode concorrer usando seu nome civil, enquanto um cantor gospel pode aparecer apenas com seu nome artístico. Por isso, a lista analisada aqui é um recorte editorial de personalidades previamente identificadas no meio evangélico, e não um cadastro oficial de candidatos evangélicos.

O resultado de 2026 deixa, portanto, uma mensagem clara: a notoriedade religiosa ajuda, mas não garante eleição. Para os cantores, a conversão de fama artística em voto continua sendo um desafio. Entre os pastores, a trajetória política e a estrutura partidária seguem pesando fortemente. E, entre os influencers, a grande questão passa a ser se a audiência construída nas redes consegue transformar em uma base eleitoral duradoura.

Fonte: Revista Comunhão


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