Golpe do “Torpedo Premiado” na região
A praticidade proporcionada pelo telefone celular tem facilitado a vida das pessoas. Mas, a engenhosidade dos bandidos tem causado dor de cabeça e prejuízos a muitos usuários. Acompanhando a evolução tecnológica, estelionatários usam os SMS, os chamados torpedos, para aplicarem os seus golpes, fazendo novas vítimas.
Uma moradora da localidade de Valão Seco, zona rural de São Francisco de Itabapoana (SFI) – cujo nome será preservado -, caiu no golpe. Ela recebeu uma mensagem pelo celular, que seria de um canal de TV e de uma empresa multinacional de gêneros alimentícios, informando que ganhara um carro 0km e R$ 7 mil por mês até 2014.
Para receber a premiação, a “contemplada” deveria comprar R$ 250 em créditos para celular e passar a numeração dos códigos de recarga através do telefone. Depois de seguir as instruções, a dona de casa percebeu que caíra num golpe e registrou a ocorrência na 147ª Delegacia de Polícia (DP/SFI).
Clonagem da linha para cometer crimes mais graves
Uma enfermeira de 35 anos, que mora em Guarus, Campos, e prefere não ter o nome divulgado, recebeu uma ligação a cobrar em seu celular. Do outro lado, uma voz feminina se identificou como funcionária da empresa de telefonia móvel, informando que o telefone estava com a linha cruzada e, para o reparo ser feito, ela deveria ligar a cobrar para um determinado número, cujo código de DDD era 21. “Tentei argumentar que a operadora telefônica não fazia contato com os clientes através de ligações a cobrar, porém, a suposta funcionária da empresa insistiu, afirmando que o conserto só seria efetuado após a minha ligação solicitando o serviço”, contou.
Desconfiada, a enfermeira ligou para um policial conhecido, que a alertou sobre o golpe. “Fiquei apavorada, já que o policial me informou que se tratava de ligação de uma das facções criminosas do Rio de Janeiro. Após ligar a cobrar para o número fornecido pelos falsos funcionários da operadora, os bandidos passam a escutar todas as nossas ligações e colhem dados para aplicar novos golpes e até outros crimes contra a própria pessoa”, explicou a quase vítima.
Manicure à beira de ser enganada
A manicure Gilmara Moreira Barreto, 27 anos, ao receber uma mensagem atribuída a uma emissora de televisão, através de seu telefone celular de que havia sido sorteada e que ganhara um carro zero quilômetro, não se conteve e ligou imediatamente para o número que apareceu no visor de seu aparelho para seguir as “orientações” a fim de receber o prêmio. “Achei que era o meu dia de sorte. Um homem atendeu a ligação com muita educação e disse que o número do meu celular foi sorteado pela emissora através da listagem da operadora telefônica e que, para retirar o carro, eu deveria depositar R$ 300 numa conta corrente de um determinado banco, a fim de pagar as despesas do frete, que não estavam incluídas na premiação”, contou Gilmara.
A manicure, que não disponibilizava da quantia no momento, ligou para um primo, na tentativa de levantar o dinheiro. “Ele chegou a me alertar de que era um golpe, mas, a possibilidade de ganhar o carro, de certa forma, me deixou ‘cega’ e não dei ouvidos ao aviso”, revelou.
Gilmara conseguiu dinheiro emprestado com o pai e, junto com uma cunhada, saiu do distrito de Travessão, em Campos, onde mora, e foi até a agência bancária, no Centro de Campos, disposta a fazer o depósito para ganhar o carro. “Minha cunhada também me alertou, mas só me convenci de que era um golpe quando o gerente do banco conversou comigo. Fiquei decepcionada por perder o prêmio que não ganhei, mas, pelo menos não fiquei sem os R$ 300, que nem eram meus. Há poucos dias, uma vizinha também recebeu um torpedo com uma mensagem parecida e consegui evitar que ela caísse no golpe”, finalizou a manicure.
O que leva alguém a cair no golpe? Uma das causas é o desejo de receber vantagens
Para o delegado titular da 123ª Delegacia Legal (DL/Macaé), Jardiel Santos de Melo, o principal motivo pelo qual as vítimas caem no golpe é a possibilidade de receber vantagem sem fazer esforço.
“Quando a pessoa vislumbra a possibilidade de ganhar um carro zero quilômetro ou qualquer outro prêmio de valor assim, acaba se deixando levar pela ganância e não enxerga mais nada. Não consegue nem racionar direito ao ponto de questionar: como posso ter sido contemplado se não participou de nenhum sorteio ou concurso?”, indagou o delegado.
Segundo o delegado Jardiel, boa parte das vítimas deste tipo de golpe sequer registra a ocorrência, motivada principalmente pelo constrangimento. “É difícil para uma pessoa admitir que foi enganada e, com vergonha, muitas vítimas assumem o prejuízo e não procuram a delegacia, mas, o registro da ocorrência é importante para os dados estatísticos da polícia”, revelou.
Para Jardiel, existem muitos obstáculos para as investigações avançarem. “A questão burocrática, por exemplo, atrapalha muito. Para conseguir a quebra do sigilo telefônico na Justiça leva cerca de 10 a 20 dias. É muito tempo para obter uma informação numa investigação deste tipo de estelionato”, ressaltou.
O delegado opina que deveria haver mais controle na venda de celulares pré-pagos. “As operadoras telefônicas poderiam ser mais rígidas com os clientes em relação a estes tipos celulares. Os bandidos utilizam esses telefones para aplicar os golpes e, depois de atingido o objetivo, descartam o aparelho”, explicou, acrescentando que os usuários de celulares devem ficar sempre atentos a fim de evitar os golpes.
Fonte: O Diário
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